sexta-feira, 4 de maio de 2007

Como decifrar Bento XVI

Intelectual ortodoxo e rigoroso, sem a preocupação de ser politicamente correto, o papa traz ao Brasil sua cruzada para recuperar a influência da Igreja no mundo moderno





A Revolução Francesa substituiu Deus pela razão. Literalmente. Em 1791, na catedral de Notre Dame de Paris, um dos maiores monumentos da Igreja Católica, os dirigentes revolucionários entronizaram como deusa Razão uma jovem e atraente cantora de ópera ligeira. A impostura, com toda a sua teatralidade e deboche, marcou o ponto alto do desafio daquela que ficou conhecida como Era das Luzes à religião dominante na França e em boa parte da Europa: o catolicismo. "A Razão", anunciaram alegremente os revolucionários, "baniu a superstição e a ignorância". Tinha início o mais radical e duradouro período de declínio da influência da Igreja Católica no mundo. E o estranhamento cada vez maior entre a Igreja e o mundo moderno.


Este papa não economiza palavras e diz claramente o que pensa, sem parecer preocupado com a reação do público. Ao defender com todas as letras o rigor da liturgia, o latim nas missas e o celibato clerical, ao condenar o uso de camisinha, o casamento gay e as pesquisas com células de embriões, ao afirmar que o segundo casamento é uma "praga" ou combater aquilo que julga serem as tendências irracionais do islã, Bento XVI desfaz as esperanças daqueles que esperavam ver um papado politicamente correto, sintonizado com as expectativas de um "público-alvo" que tem deixado o catolicismo atraído pelo apelo de outras denominações cristãs. Para esses, o papa é um ultraconserva-dor que levará a Igreja de volta à rigidez que a estagnou. Para outros, porém, ele é a mente mais alerta à perigosa situação que o mundo pós-iluminista enfrenta. Será o caminho apontado por Bento XVI o correto para devolver à Igreja Católica sua influência? Conseguirá ele resgatar - pelas luzes da razão - a importância da Igreja Católica?
Intelectual ambicioso e rigoroso, acusado por seus críticos de ser eurocêntrico e de confundir a Cristandade com o continente onde nasceu e sempre viveu, Bento XVI sai da Europa pela primeira vez desde que foi eleito papa. Vem para Aparecida, no Vale do Paraíba, por escolha própria. Foi ele que, ao receber uma delegação de cardeais latino-americanos ainda no ano em que foi eleito, decidiu que a V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e Caribenho teria de acontecer no maior santuário dedicado a Nossa Senhora no Brasil, maior país católico do mundo. Ele vem visitar o continente onde vive metade dos católicos do mundo. "Que esse continente continuasse sendo um dos mais pobres do mundo lançou à Igreja um desafio que não poderia ser ignorado", escreveu o papa em 1982, ano em que começou a dirigir a Congregação para a Doutrina da Fé, órgão do Vaticano responsável por manter a ortodoxia católica. Para a Igreja na América Latina, dizia então o papa, "o problema não era se tornar moderna, mas ultrapassar a modernidade" que havia condenado o continente a um capitalismo periférico e pobre ou à catastrófica alternativa marxista.


Bento XVI não é João Paulo II. Se é verdade que Ratzinger foi importante no pontificado anterior, sua ação como papa só pode ser entendida no contraste com seu antecessor. Especialmente no que diz respeito à insistência na defesa da razão, à tentativa de resgate do esplendor da Igreja por meio de um novo papel que ela tem a desempenhar no mundo. "João Paulo II era ansioso por envolver a Igreja na remodelação de uma ordem mundial de paz, justiça e amor fraterno", diz o cardeal Dulles. Era uma espécie de papa de resulta-dos, que não se acanhou em aliar-se ao governo iraniano numa reunião da ONU para barrar a menção do aborto como método contraceptivo.
Para Bento XVI, afirmar a identidade católica é mais importante que os resultados, contabilizados em vitórias políticas ou número de fiéis. Ele quer influência real, não vencer uma corrida. Quer qualidade, não quantidade. Segundo seu raciocínio, de nada adianta ter mais católicos se eles não praticarem a religião de fato. Por isso, Bento XVI não se acanha em proclamar a doutrina tradicional católica. Mesmo que desagrade profundamente ao establishment politicamente correto. O exemplo mais recente foi a caracterização do segundo casamento dos divorciados como uma "praga", que gerou enorme polêmica no Brasil e levou até bispos católicos a afirmar que se tratava de um possível erro de tradução.




Marcelo Musa Cavallari (Revista Época)






Artigo que achei bastante interessante, este de Marcelo Cavallari que pode ser discutido e analisado como é feito por Padre Vando Valentini em seu Blog - http://www.epoca467.globolog.com.br/. Agora leia, aprecie e opine...

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